Sexta feira, oito horas da noite e nós dois perdidos no trânsito de São Paulo. Pra você, isso era só mais um motivo pra enumerar todos os problemas da sua vida, da cidade lotada ou do meu atraso escolhendo a roupa ideal. Tanto faz. Naquele exato momento tanto faz. Gosto de aproveitar esses momentos que a metrópole proporciona. Quando não só percebemos mas realmente nos sentimos um pequeno ponto sem cor entre milhares de variações de uma paleta. Todos correndo quase que insconscientemente pra casa desejando que aquele dia simplesmente acabe, desejando apagar no seu travesseiro todas as discussões desnecessárias que acarretaram um cansaço que mais se parece com uma pedra em nossas costas.
Então eu foco meus olhos em todos aqueles pontos de luz do farol e te pergunto: Você já amou tanto alguma coisa que pensa nela todos os dias antes de dormir? que sua vida só terá sentido se alcançar essa coisa?
A resposta é mais rápida do que esperava, um não bem curto e ríspido acompanhado de um aperto dos dedos com ódio no volante pelo carro da frente que responde lentamente aos avanços preguiçosos do trânsito. Era triste amar uma criatura incapaz de sentir amor. Independente do que fosse, eu gostaria que essa coisa existisse pra ele também. Sempre tive a impressão de que somente pessoas apaixonadas seja por alguém, pela luz que o sol radia logo pela manhã ou pelo cheiro de livros antigos, estas pessoas, conseguem captar o que a vida tem de melhor. Aqueles milésimos de segundo capazes de mudar sua vida. Uma borboleta que pousa numa xícara, um chiclete cravado no asfalto bem no meio da ponte Oswaldo Cruz em formato de minhoca, uma conversa boba de crianças cheias de fábulas e medos. Eu amo isso. Eu vivo disso.
Anos atrás, quando tinha uns 13 anos, fui com uma amiga passar o fim de semana na casa de uma tia dela numa cidade bem próxima da minha. A rodoviária era bem afastada e subir todas aqueles morros com mochilas me pareceu uma tarefa bastante cansativa e tediosa. Porém a magia de estar longe dos meus pais, me dava a esperança de quem sabe viver grandes emoções naquele pequeno sopro de liberdade. Guardamos nossas mochilas e com uma câmera que era bem comum da minha avó, tios e primos eu registraria a 'viagem'. Foi quando eu senti esse amor pela primeira vez.
O sol persistia em cansar nossa empolgação por desvendar a cidade, uma árvore seca entrelaçava numa espécie de um cesto entre galhos e raios luminosos. Conforme me aproximava daquele muro bastante gasto mas que ainda preservava uma espérie de relevo formando linhas curvas que se encontravam no centro do desenho traduzindo uma flor, a vi pela primeira vez: era uma casa antiga.
Pintada de um verde bem claro, tinha à sua frente um jardim de arbustos firmes cortados de maneira moldada e uma fonte redonda com uma escultura no meio. Escultura esta que precisava ser vista bem de perto pra se identificar que era um anjo. Tinha duas portas para entrada principal e uma janela diferente de todas as outras da casa com a vidraçaria colorida e armação arredondada, me fazendo imaginar que ali talvez seria uma sala importante para as visitas. No andar de cima, bem em cima proxímo ao teto, uma pequenina abertura circular com os dizeres ' vila ramalho' contornando. Tinha também varandas, dos dois lados. Deveriam ser os melhores quartos da casa.
Muito além do desejo material, acredito que certos lugares, momentos e pessoas que nunca vimos antes, podem nos trazer emoções sem remetente que sempre estiveram dentro de nós, mas faltava aquele milésimo de segundo para despertarem. Eu queria passar o dia ali na calçada, só imaginando ainda não sabia o que, mas era o meu lugar naquele momento.
Os anos se passaram. Para ser mais exata dez anos se passaram. E todos os anos, pelo menos uma vez eu tento ir à 'minha' casa verde. Algumas vezes os funcionários da prefeitura, (que tem a posse do imóvel) esquecem o portão aberto e consigo vagar horas a fio pelo quintal sem ser percebida. Pensamentos, histórias, fragmentos do tempo perdidos, amor não se explica. Se sente. E naquela hora, naqueles minutos eu só quero sentir o bem que esse lugar me faz.
E eu te pergunto: Não ama nada mesmo? Não sente a corriqueira alegria de se fazer o que gosta, onde se gosta? Ir dormir sem ter amado, é apagar uma luz que nem mesmo se deu ao trabalho de acender. E o prazer de enxergar é impagável. Tem gente que vê com o tato, com os sons, com os cheiros. O modo como você vê é uma intimidade capaz de dizer quem você é.
E no momento, vejo que desse trânsito engarrafado e de todos os milhares de pontos coloridos, esse ao meu lado que me acompanhará no jantar mais tarde, é nulo. E não se pode amar algo que não existe.

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